sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O futebol psicanalítico do Barcelona

Falar do Barcelona: por quê? Muitos dizem por aí que futebol não acrescenta em nada, não te faz pensar, pois só se vê jogador repetindo as mesmas frases feitas, pegando as popozudas e etc. É claro que nem sempre futebol é interessante, e isso porque na grande maioria do tempo não se joga futebol, joga-se pelada. O futebol tem aproximadamente 160 anos e penso que só agora, após vermos o Barcelona ganhar um campeonato mundial da maneira que o fez, podemos dizer que estamos realmente aprendendo o jogo. E quando o futebol é jogado, ele pode ensinar alguma coisa para a vida - tal como mais normalmente falam do xadrez: é um jogo filosófico, "cabeça" e tals. Mais precisamente, quero sustentar que a conquista do mundial da FIFA pelo Barça foi o ápice de uma nova maneira de jogar futebol, promovida pelo clube, e que, a meu ver, na verdade re-inaugura o próprio esporte. E esse ato de reinauguração é um ponto de fim de uma concepção de futebol e o início de outra. De modo que esse corte com o significado, com o modo de jogar futebol que vigorava até o surgimento do evento Barcelona, mostra perfeitamente a direção indicada pela psicanálise para que haja a criação, ou seja, mostra para onde ela aponta sua própria eficácia enquanto prática. Se essa hipótese for adequada, a consequência é a de que o modo de jogo do Barcelona ocupou o lugar de analista no futebol e interpretou (no sentido psicanalítico) as pessoas envolvidas com o esporte. 

Mas vamos por partes. No ano de 2011, o Barcelona simplesmente foi disparado o melhor time do mundo, ou seja, o mais eficaz. Ganhou três dos quatro títulos que disputou: campeonato espanhol, campeonato europeu, campeonato mundial, mas não a Copa do Rei da Espanha. Além disso, muitos jogos foram ganhos por goleadas, com o Barça dominando completamente o jogo (em média o time mantém a posse de bola por 60, 65% do tempo de jogo), criando várias oportunidades de gol, além dos já marcados. É o time que tem a base da seleção espanhola, atual campeã da Copa do Mundo; tem três dos quatro melhores jogadores de futebol dos últimos três anos (Messi, Xavi e Iniesta); tem O melhor jogador do mundo há três anos (Messi), tem um dos três melhores jogadores de futebol de toda a história (ao lado de Pelé e Maradona, não saberia dizer em que ordem), e tem um dos três melhores times de todos os tempos (ao lado do carrossel holandês, em 1974, e da seleção canarinho campeã do mundo em 70). Porquê o Barcelona conseguiu tanta eficácia com o futebol nos últimos anos? Como eles jogam? Minha hipótese é a de que o time assumiu a postura psicanalítica com relação ao futebol, o que fez o time adotar um estilo de jogo que não havia sido executado até então. Os outros times (pois o futebol hoje é assim: existe o Barcelona e existem os outros times, é praticamente unânime), por não terem ainda conseguido se tornar analistas (bem entendido: "analista" é uma função psíquica, a ser explicitada adiante), não conseguiram encontrar uma maneira de neutralizar os movimentos do Barça. Assim, mesmo perdendo um ou outro jogo, o Barcelona sempre joga melhor do que seu adversário: tem mais posse de bola, mais chances de gol criadas, mais bolas roubadas, etc.

No entanto, o primeiro campeonato mundial que o time conquistou foi apenas recentemente, em 2009, e até então o time era criticado por não tê-lo conseguido. Na final de 2011 contra o Santos, os espanhois queriam aumentar sua quantidade de troféus na competição e fechar o ano conquistando todos os títulos que disputou. Houve uma grande expectativa da imprensa brasileira para o duelo "Neymar x Messi". Como se sabe, Neymar é aquele jogador do santos que alguns tiveram a audácia de comparar a Pelé, e, mais ainda, de falarem que ele seria melhor do que Messi. E a grande questão que animava a expectativa era: conseguiria o Santos de Neymar e Ganso (outro jogador de destaque na equipe, que já foi comparado a zidane) derrotar o melhor time do planeta? A verdade é que ninguém, talvez exceto o próprio time santista, cria ser possível a façanha. De qualquer modo, o mundo - do futebol brasileiro pelo menos - estava em polvorosa. Todos queriam ver o Barça e seu futebol revolucionário na competição de maior alcance internacional - contra um time brasileiro. 

Pois bem, chega o momento. O que se viu nos noventa minutos de partida foi um treino, e com apenas um time em campo. Não há estatísticas que mostrem o domínio absoluto do campo e do jogo por parte do Barça. Neymar e seus companheiros mal conseguiam acompanhar o que estavam assistindo (pois jogar, o Santos não o fez). O time catalão chegou a incríveis 76% de posse de bola no primeiro tempo e 72% no segundo. Demorou 16 minutos para marcar o primeiro gol em uma tabela entre três jogadores: Messi tocou para Fàbregas, que tocou de primeira para Xavi; o passe não foi dos melhores, obrigando Xavi a esticar a perna para dominar de chaleira, de maneira linda; daí lançou para Messi que, contando com uma falha do defensor santista que não cortou o passe, ficou de frente para o goleiro, mas com pouco ângulo para tocar rasteiro (como dizem, o goleiro 'cresceu' na frente dele). Solução de gênio: se não dá por baixo, encubra o goleiro. 1 x 0 barça.

Com a vantagem no placar, 99,9% dos times que disputassem a final do mundial parariam de atacar, pois que o adversário tende a correr atrás do resultado nos primeiros minutos após sofrer o gol, de modo a tentar esfriar os ânimos do oponente. Não o Barcelona. O time manteve a esmagadora posse de bola, pressionando muito o adversário quando não a possuía, para recuperá-la. Sete minutos depois do gol, outro. A meu ver, esse é o gol que melhor representa o que é o futebol do Barça. Após intensa troca de passes para conseguir um espaço, Daniel Alves avança pela direita enquanto três jogadores se apresentam dentro da área para receber a bola e finalizar. Daniel não passa para nenhum deles; tenta passar para um quarto jogador, Messi, que se apresentava na entrada da área e estava desmarcado porque os zagueiros estavam apenas preocupados com os jogadores que estavam dentro da área. No entanto, cercado, Messi recua mas a posse de bola fica com o Barcelona, que continua trocando passes, sem deixar o santos encostar na bola, até que, como num replay do primeiro lance, Daniel Alves recebe livre pela direita, avança, há três jogadores posicionados no meio da área, marcados, e um chegando por trás, na entrada da área, livre. Dessa vez tenta tocar para a posição do centroavante (que no momento estava ocupada por   Xavi), mas o passe foi interceptado, porém a sobra e a posse de bola seguiam com o barça. E ainda mais uma vez, após troca de passes, Daniel Alves recebe novamente na direita, livre, três jogadores na área e um chegando por trás: desta vez o passe saiu correto, e Xavi dominou a bola com a parte de dentro do pé, em seguida arrematando de bate-pronto (quando imediatamente após a bola quicar no chão, em seu movimento ascendente, dá-se o chute, como que num contratempo musical), indefensável: 2 x 0. No total, foi aproximadamente 1 minuto e meio entre a posse de bola e o gol, o Santos tendo apenas tocado duas vezes na bola, sem dominá-la. 

Era visível que o time santista se comportava como uma criança jogando futebol contra o pelé: assombrado, sem saber o que fazer quando tinha a bola, com o olhar completamente desorientado, quase que pedindo pro juiz terminar logo o primeiro tempo. O time do Santos virou o tímido Santos: os narradores criticaram a postura passiva do time como que hipnotizado pelo toque de bola espanhol. Era uma tourada: o santos ziguezagueado, atrás do pano vermelho que a pelota se tornava aos pés dos espanhois. Finalmente o apito encerra a primeira parte da tortura. 

No segundo tempo, esperava-se que o Santos pelo menos tivesse mais calma, mais posse de bola e que levasse algum perigo ao Barcelona. O que se viu foi um outro primeiro tempo, apenas com 4% a menos de posse de bola. O terceiro gol saiu após um lançamento que encontrou Messi na área. O argentino disputou a bola com o zagueiro, mas já estava sem ângulo para chutar a gol. Solução de gênio: tocar de calcanhar para Daniel Alves, que passou pela direita e cruzou para a pequena área. Após desvio do goleiro, Pedro cabeceou a sobra e o goleiro novamente defende; na sobra, Fàbregas tocou esquisito, mas macio no canto, sem goleiro. 3 a 0. O jogo já estava decidido. Mas ainda não havia acabado. O time santista teria que aguentar até o apito final.

O quarto gol também mostra a posição ética do Barcelona. O Santos tinha a posse de bola, porém, sem comodismo por já ter o resultado, o Barça continua a pressionar o adversário até que ele fique sem opção de passe. Com isso, a bola foi recuada para o goleiro, o único jogador que não estava marcado. Sem saber o que fazer com a bola, ele deu um chutão para frente e para o alto. Na dividida de cabeça, o jogador do Barcelona leva a vantagem e a bola vai na direção do campo do santos, quando Daniel Alves toca de cabeça para frente. Messi, que receberia a bola, estava impedido e não foi em direção a ela, o que pararia o lance e daria ao santos a posse. Quem continuou a correr atrás dela foi o próprio Daniel Alves, e conseguiu dominá-la. Ao perceber isso, Messi se deslocou para a área para recebê-la (uma vez que como Messi não foi pra bola o lance segue), deu um drible seco no goleiro e gol. Era isso. Barcelona quatro (gols, pois as chances claras de gol foram muito mais), Santos zero.

Ao final do jogo, todos estavam meio que assustados: foi praticamente um jogo de um time só, que mal deu chances de o adversário sequer tocar na bola. Um massacre. Os nomes que surgiram foram vários: futebol total, futebol extraterrestre, "choque de realidade"; até mesmo disseram que o Barcelona parece time de videogame, de tanto que é fácil a maneira que eles jogam. Barcelona era campeão do mundo: deste e de outros. Como eu disse, a questão era se seria possível ganhar do barça: era, mas não foi. O que chocou a todos os brasileiros foi a enorme superioridade técnica, tática, posicional dos espanhois. Pois esperava-se (ou melhor, sonhava-se) que, pelo menos, o Santos jogasse futebol contra o Barça. Nem isso. O jogo despertou o Santos e aqueles que 'acreditavam'. Só para se ter uma ideia da anormalidade desse time foram 768 passes trocados entre os jogadores, contra 233 dos alvinegros; Xavi e Iniesta deram 110 passes cada, acertando 108 e 107, respectivamente.

Ao saírem do campo, os santistas tentavam achar explicações para o que havia ocorrido: balbuciavam, completamente atônitos. Neymar, ícone do sonho santista foi o primeiro a ser entrevistado. Visivelmente transtornado, declarou, desperto: "hoje, aqui, aprendemos a jogar futebol". Não precisava ter falado mais nada. Era o sentimento de todos os que viram a partida. 

Já o técnico do Santos, Muricy Ramalho, como conhecedor do futebol que é, enfatizou o esquema tático do Barcelona na sua entrevista. "O Barcelona joga praticamente num 3-7-0. No Brasil seria um absurdo, viraria caso de polícia e mandariam prender o técnico. Temos o costume no Brasil de que o número de atacantes indica ofensividade, mas o Barcelona prova que é possível jogar bem e fazer gol sem nenhum atacante. Quem sabe aos poucos a gente não comece a aceitar isso no futebol brasileiro também..." declarou. É aqui que quero apontar a posição analítica do time catalão. Em futebol existem as posições dos jogadores: o goleiro, que defende; o zagueiro que fica lá atrás, apenas à frente do goleiro; os laterais, nos flancos do campo; os meio-campo; e os atacantes, que ficam lá na frente, poucas vezes fazendo qualquer função defensiva. Essa é uma organização simbólica de um time: cada um tem seu lugar na estrutura da equipe e do campo, cada um tem uma função e um lugar definidos: zagueiro não ataca, atacante não defende, ficam limitados a suas regiões do campo. Esse modo simbólico de definir posições acaba cristalizando um jogador, especializando-o demais: zagueiro no Brasil não sabe fazer um bom passe, pois ele só serve pra dar chutão e tirar a bola da sua área; atacante não sabe marcar, fazer passe para outrem, pois só sabe esperar na banheira pra dar um bicudo pro gol e correr pro abraço. Meio campo não sabe chegar bem no ataque e finalizar porque só se preocupa em ser garçon e servir os atacantes. Esse discernimento, essa distinção (que são o fundamento da lógica do simbólico) quanto ao que cada corpo deve fazer em campo (que é necessário para se obter um mínimo de organização das funções em campo) se torna aquilo que engessa o próprio corpo  dos jogadores em suas respectivas funções. É o que se chama de sintoma em psicanálise, essa organização simbólica que se decanta imaginariamente no ser: "sou um lateral-direito", "sou um atacante", etc, e não se sai disso. Daí surgem os cacoetes, as repetições, o que facilita para que o adversário atento anteveja os movimentos dos jogadores. De modo que o paradigma das posições dos jogadores de futebol é fundamentado na lógica do sintoma, ou seja, do isolamento e manutenção da ordem estabelecida. O jogador, então, passa a se comportar como um computador, com um programa instalado que só faz uma única e mesma coisa; ou mesmo como um animal, programado instintualmente. 

Ao passo que a crítica que o Barcelona faz é a de justamente tentar não permitir - claro que na medida do possível - uma estase na função de seus jogadores, para abrir espaço para a surpresa, para o imprevisto, enfim, para a mutação das coordenadas simbólicas dos atletas no campo. No Barcelona, jogadores excepcionais como Xavi e Iniesta são tão importantes porque apesar de terem uma função no campo (por exemplo, ambos são meio-campo), equivocam suas posições, ora atacando como centroavantes, ora na ponta direita, ora defendendo, enfim, distribuídos pelo campo. Vejam, o Barcelona entrou sem "atacantes" em campo contra o santos. Ou, melhor dizendo, entrou sem jogadores atacantes, pois as posições de ataque no campo (pequena área, grande área) são ocupadas por jogadores de qualquer "posição", sejam eles zagueiros, meio-campo, etc. A gente viu um Daniel Alves que não era lateral, mas muito mais um ponta, tanto pela direita como pela esquerda. De modo que um jogador, uma jogada, ficam muito mais imprevisíveis, menos sintomáticos, mais disponíveis para as diferentes situações do jogo. Eles não deixam de ter um  sintoma de base, uma posição fundamental em campo, mas fazem um uso equívoco de seus sintomas, de seu ser no gramado. Eles me lembram o time de basquete do Harlem Globetrotters, que tinham essa mesma característica. Era hipnotizante. "O Barcelona tem tudo para ser o melhor time da história do futebol. É muito complicado enfrentá-los. Quando você rouba a bola, já tem três em cima. Se vocês lembrarem o terceiro gol, eles chutam, eu defendo, ocorre um novo chute, eu defendo de novo e acontece o gol. Eles se multiplicam em campo. O Fàbregas é referência na área e, de repente, está na ponta. O Messi está na direita, na esquerda, no meio. Não conseguimos jogar no primeiro tempo porque não é possível fazer marcação individual no Barcelona", disse o goleiro do Santos. E como futebol é um jogo de tentativa de abertura de espaços para que um jogador tenha boa oportunidade para finalizar, jogar em uma postura sem posições fixas confunde a marcação do adversário, o que deixa os jogadores livres para fazer o lance mais apropriado para aquela posição em que ele se encontra - seja passar a bola para outro que está com espaço em um bom ponto do campo ou finalizar a jogada. Isso tudo aliado a um extensivo trabalho de lapidação do maior fundamento do futebol: chutar a bola de maneira adequada, seja para fazer um passe (na maioria das vezes), seja para finalizar após a construção de uma jogada pela troca de passes, seja inclusive para conduzi-la - é muito importante alguém sacar quando continuar com a bola... Os jogadores do barça têm muita precisão no toque de bola, de modo a ser eficaz quando os espaços se apresentam; todos, do zagueiro ao atacante têm muita precisão nas finalizações, metem goleadas o tempo todo; e falar de condução de bola, só preciso dizer uma coisa: Messi. Quê mais tem pra se fazer em futebol? (PS: nesse ponto, o texto tem um ponto aberto para a crítica)

Então, em oposição às diferenças das posições de jogadores em campo, a ética do Barcelona é saber que sim, existem diferenças de posições (pois não farei um gol do meio de campo, farei um gol entre a intermediária e o gol adversário: é preciso estar relativamente perto do gol para fazê-lo, pelo menos na maioria das vezes) no campo, mas  elas são indiferentes aos elementos (jogadores) que as ocupam, ou seja, são neutras, qualquer um e qualquer coisa pode ocupar o lugar do atacante, do meia, etc., além de poder transitar entre elas. Trata-se de criar esses lugares a partir da abertura de espaços no campo. Se eu sou um volante, mas vejo a oportunidade clara de ser atacante, porquê não agarrá-la? O que interessa é o time e o objetivo do jogo, quer dizer, o Bem maior, né? Essa postura de indiferença com relação às (o)posições - ditas simbólicas - é o lugar do real em psicanálise, lugar que o analista ocupa para conseguir fazer surgir alguma posição nova no psiquismo de alguém, quer dizer, ampliar suas possibilidades sintomáticas no trato com as coisas, os adversários, da vida. Como faz o Barça, indiscernindo as posições dos jogadores (que quando ocupam uma posição a sintomatizam) para criarem outras configurações, outros sintomas no campo, que lhes possibilitem chegar ao objetivo comum da sociedade (o time), que é o objetivo do jogo. Podemos chamar isso, como diz o psicanalista Célio Garcia, de lógica não-predicativa, pois os elementos em campo podem fazer vários usos predicativos de seu lugar nele; não há predicados, mas usos de predicações. Enfim, o que se quer chamar de psicanálise só acontece quando esse lugar é experienciado, tocado. E uma vez que se chega à indiferença, a diferença, o novo, surge. Foi isso que o Barcelona fez em relação aos outros times de futebol: deu um "passe", que em lacanês é o momento que uma pessoa submetida a análise passa a ser analista, ou seja, aprende a usar o recurso de indiferenciação dos sintomas por si só. E isso causou em grande parte do mundo futebolístico o que muitos chamaram de "choque de realidade", ou seja, o horror diante da realidade do futebol brasileiro: não deu nem pro cheiro contra um futebol assim. Aprendemos, sim, de uma maneira dolorosa, na experiência com o real do Barça: dá pra jogar melhor (quer dizer, diferentemente) do que temos feito. Foi uma interpretação analítica, quer dizer, algo que causou uma experiência de "derrelição" no outro, que mostra o equívoco de sua realidade atual, de seu sintoma (seu modo de jogar futebol), ao apresentar a nova possibilidade, que, para o sintoma em questão, se afigurava como impossível (o que o Barcelona faz é impossível... de agora em diante, temos que saber como isso foi possibilitado). Então, meu querido futebol brasileiro, comecemos a nos libertar desses nossos sintomas quando estivermos formando um jogador daqui pra frente: não formemos Pelés, Fenômenos, atacantes, zagueiros, ou o caralho a quatro. Formemos PESSOAS, que por algum acaso joguem futebol como seu lugar no mundo. Formemos humanos que possam fazer recurso à humanidade em qualquer atividade de que eles se ocupem: de futebolista a filósofo. O Barcelona resolveu fazer isso há trinta anos, quando reformulou toda sua estrutura futebolística, para formar craques nas categorias de base, com custo praticamente zero; mas, antes de tudo, para formar cidadãos, formar sujeitos que jogam futebol, e não meramente zagueiros e meias. Além de futebol, o clube Barcelona tem sucesso praticamente similar em outros esportes, como vôlei, basquete e outros. Como dizem os projetos com crianças e adolescente em situação de risco social no Brasil: através do esporte, formar cidadãos. E a cidadania se reflete na evolução do esporte. Lá no Museu do Futebol, em SP, há um quadro com uma frase de Nelson Rodrigues: "o futebol civiliza o pé". Se pelo menos nossos pés se civilizassem, já seria um grande 'passo' (ou 'passe') para certas mudanças sociais que desejamos. Concluo, então, com palmas para essa microsociedade: ela pode estar indicando um (interessante) caminho para os vínculos do novo século, do novo milênio. Vínculos que, por se perceberem cada vez menos iguais a si mesmos, suportem (no duplo sentido de aguentar e dar suporte) em maior grau as diferenças entre si mesmos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A realidade e o Real no BBB, ou "A Vida Como Ela Sou"

Para aqueles que não sabem, (e com certeza não serão as pessoas a ler estas 'páginas') algo se passou com o BBB nesta semana do 16/01/2012. Após uma festa movida a álcool, dois participantes, um modelo e uma dentista, vão para 'debaixo do edredon' (sintagma popularizado pelo programa, que significa transar). A imagem mostra o rapaz se movimentando sexualmente sob o edredon e a rapariga aparentemente não está se movendo. E o nome dessa imagem nas redes sociais se tornou algo como "moça desmaiada de tanto beber sendo estuprada por homem bêbado", por motivos óbvios. 

No dia seguinte, Monique disse para um participante que "só se ele foi muito mau-caráter pra ter feito sexo comigo dormindo", indicativo de que ela não teve 'consciência' das investidas de Daniel. Até onde acompanhei (o caso, não o programa, rs), não fiquei sabendo de quaisquer declarações do rapaz. de modo que é razoável presumir que um crime ocorreu dentro do programa. O próprio envolvimento da polícia, que entrou na casa, se conecta aos outros fatos. Daniel foi expulso 3 dias depois do ocorrido.

Pois bem, aproveito o ensejo para fazer uma distinção no conceito do programa: reality show. Uma reportagem da R7,empresa de notícias do Edir Macêdo, o Bispo da Record, - com muita satisfação, diga-se de passagem - fala no título da matéria que "o Big brother não existe mais". Fiquei curioso sobre como ela explicaria essa frase. A reportagem explicita, adequadamente a meu ver, que TV globo (não a internet) não disse qual 'regra do programa' (!) havia sido infringida por Daniel, nem no Jornal Nacional, que noticiou o caso, nem no próprio BBB, numa clara censura em dizer o conteúdo sexual da infração. Ora, uma vez que a grande maioria dos telespectadores de BBB não têm acesso à internet (único meio em que a palavra "sexual" foi explícita), esse público não ficou sabendo do que se tratava: ficaram "boiando". Outro ponto citado é que nenhum 'brother' ou 'sister' comentou a expulsão, o que indica que foram instruídos a se calarem sobre isso. Segundo a R7, seria óbvio que a "a manipulação (da direção do programa) é total, afinal não se elimina alguém dessa maneira sem gerar a curiosidade das outras pessoas. Monique, diretamente envolvida no caso, ficou fazendo cara de paisagem o tempo todo". E, mais enfática ainda, conclui:  "o BBB perdeu completamente o sentido de existir do jeito que é hoje. A atração passou a ser assumidamente uma novela, com roteiro e um diretor comandando tudo, ocultando e mostrando o que deseja", porque "perdeu o seu conceito principal que é mostrar a realidade".

É precisamente aqui que quero fazer minha distinção entre realidade e real. Em psicanálise, os conceitos se entrelaçam, mas não se confundem. Freud mostrou que a realidade de alguém não é algo imparcial, neutro, exterior ao sujeito, mas pelo contrário, ela é impregnada de fantasias, conteúdos, morais, etc. Uma realidade não é "a vida como ela é", pois a vida (ou seja, a realidade) é moldada para atender nossas exigências (morais, est'éticas... enfim, pulsionais). Como se chegou a esse conceito? Justamente por que a psicanálise entende que para um ser humano, um fato é o que ele acha que o seja. Não há algo como interpretação da realidade porque uma realidade é um fato de quem interpreta a vida. Só dá pra tratar alguém em análise quando se entende isso: uma interpretação, uma versão de um fato (digamos um trauma) é um outro fato (o nome do trauma) se conectando ao primeiro. A nomeação de um trauma constitui o próprio trauma, numa temporalidade retroativa. Por isso, ambos são fatos, o acontecimento e o nome do acontecimento. São eles que constituem a realidade e a asseguram, pois realidade é algo muito frágil, apesar de sua força massiva; ela precisa de se impor, se insistir, se repetir, senão sua arquitetura rui instantaneamente ao menor equívoco. A psicanálise descobriu que só pode agir caso entenda que só há fatos, não há interpretações. O que alguém 'interpreta' da vida são os próprios fatos simbólicos da sua vida. Aí sim, poderíamos dizer "a vida como ela sou"... 

Já o real nada tem de realidade, pois é o que rompe com ela. Ele é o agente de modificação das realidades. Me explico: quando o fato "estupro" surgiu, a realidade tal como era no programa foi manchada, eternamente modificada, pois agora o BBB não é mais o mesmo: um crime ocorreu na casa, "chegamos ao fundo do poço", etc. Esse colapso de uma realidade anterior a um fato e sua reconstrução subsequente como outro fato é o denotativo do real. Cito (de novo, e ainda) um grande linguista, J.-C. Milner, que estudou muita psicanálise: "num instante fora do tempo, num espaço fora do espaço acontece como que uma escansão nua, cuja atestação reside apenas nos efeitos de dispersão que ela acarreta. Contanto que um sujeito consiga suspender a demanda das significações ligadas [realidades], um sinal é certo, e é o horror [olha o estupro aí]. [...] o horror instantâneo nasce de uma nomeação que ao mesmo tempo o suspende. [...] Nada aconteceu, senão que, nesse nada que separa um antes de um depois, ao sujeito aconteceu um real". Como nomear o que aconteceu na casa? "Violação de regras do programa?" "Estupro"? "Tentativa de estupro"?Virtualmente, o real se presta a qualquer nome, a qualquer realidade, mas seu nome será uma limitação a todos os outros que seriam possíveis; quer dizer, sempre uma realidade a cada vez, a cada nome.

O real é pura denotação, ou seja, o inexplicável, o susto, o próprio rompimento do estabelecido, enquanto a realidade é o conotativo, sempre fantasiado, sempre metafórico e sempre reconstruído: é a lenga-lenga nossa de cada dia. Digamos que realidade é um termo a ser usado no plural, já que cada um tem a sua, enquanto só há um real, pois que ele é o próprio Um (ou melhor, o próprio nome do Um)... "O que não tem nome, nem nunca terá". Todo mundo entende o que ninguém sabe...

Podemos ver, por exemplo, que, como bem colocou a Record, a 'manipulação' do acontecimento, ao dar o nome de 'violação da regra do programa', tenta constituir um outro fato, que não seja "estupro", ou "abuso sexual", fatos que trariam mais problemas para a emissora caso fossem pronunciados. E os participantes foram instruídos a não dar novos fatos, ou seja, se calarem para que o assunto seja encerrado. Claro que a Globo defendeu seus interesses nisso, e ocultou os outros (e não 'os verdadeiros') fatos. Imagina se os patrocinadores não ficariam putos de ver seu nome atrelado a "estupro"! A Globo perderia muita grana. Aliás, vai perder, mesmo assim. E o resultado foi que, para muitos brasileiros, os fatos (sem aspas!) foram: "o cara violou uma regra", e não questionaram sobre outros fatos possíveis: compartilharam a realidade da Globo, ao menos naquele primeiro momento de informação. É o famoso "pano quente". 

Daí que, ao contrário do que a R7 conclui, mas pelos mesmos motivos, digo que reality show é um nome bem adequado a um programa que quer esconder o real e o usurpa sob o termo realidade... como se mostrasse "a vida como ela é"... como se a vida fosse a mesma para as pessoas. O BBB sempre 'manipulou' o programa, desde a 'democrática eleição' dos 'herois' até as regras de comportamento do programa (a que os participantes se submetem para ganhar o $$), afinal, o programa é deles. E isso não é só na Globo, não. Tá nos jornais mais conceituados, tá em tudo e em todos: cada um criando sua realidade e querendo que outros a compartilhem. Nomeio disso tudo, os turbilhões do mal-entendido se matam e se criam... Sem saber o que fazem... 

terça-feira, 23 de março de 2010

Habeas corpus para tanto excesso

Freud chamou de 'pobreza psicológica' a vinculação entre sujeitos em um grupo quando os laços que os unem são de identificação, sem a promoção das diferenças em cada sujeito. E citou os Estados Unidos no rol dos 'países pobres'...
Me pergunto se é ou não pobreza. Mas coloquemos os fatos - tanto o ocorrido quanto o narrado.
Annie Levitz, 16 anos, teve que ser operada por causa de um problema localizado num músculo entre a mão e o antebraço, conhecido como síndrome do túnel carpal. Foi uma lesão causada por esforço repetitivo: enviar mais de quatro mil mensagens de celular por mês. O que equivale a 133 mensagens por dia; se considerarmos que ela dorme por 7 horas ao dia, temos 7 mensagens por hora, ou seja, uma mensagem a cada 8 minutos em que estiver acordada. Mensagns cujos conteúdos eram da estirpe de:
- "What's up?"
- "What's up?"
- "Nothing" (Grifo meu)
Trocando em miúdos, escreve-se nada, fala-se nada, conversa-se nada (na afirmativa - não quero dizer que elas não conversam nada).
O que aconteceu é que Annie, de tanto segurar o celular para enviar mensagens (pra quem tantas mensagens?), não conseguia mais segurar outros objetos, como copos, pratos, que caíam (slipped away from) de suas mãos. Aí, ela passou a estranhar a situação.
A mãe, mesmo ciente dessa quantidade de mensagens, não quis tirar o telefone de Annie, porque o telefone "é toda a vida social dela" (fonte: http://abcnews.go.com/Technology/video/texting-teen-carpal-tunnel-syndrome-10148475 - grifo meu). Isso é algo digno de nota. Essa mãe está dizendo que, sem o celular, a garota não terá social life, o que se petrifica como "não há social life sem celular". E, já que não se sai disso, não há para essa mãe como evitar que a filha continue enviando mensagens.
Após a operação, parece que a garota aprendeu sua lição: agora são apenas 2.000 mensagens ao dia! (Deve ser porque agora ela deve estar usando apenas uma mão...)
O que eu quero supor é que há uma paralização na capacidade de des-ser nesse caso. A filha não consegue não ser alguém que manda mensagens até estourar o braço; a mãe, não consegue não ser alguém que limita toda a possibilidade de vida social da filha ao uso de mensagens de texto por celular. O ser está instalado (entalado, enlatado) nesses corpos com uma pega sintomática da maior força, mais do que os corpos podem suportar (dar suporte). E essa incapacidade de equivocar seus princípios as leva ao seus fins. O síndrome é sintoma das duas (pois a mãe também investe economicamente nesse sintoma, já que paga a conta de telefone), apenas fisicamente se manifestando em um dos corpos.
Ora, por quê será que Annie não pôde conter seu mental a ponto de pelo menos poupar o seu físico? Por quê sua mãe se mostrou tão refratária aos equívocos (efeitos) do significante, ao petrificar signicamente seus princípios? 
Quero lembrar que uma característica marcante na psicose é exatamente essa não tolerância aos efeitos de equívoco do significante. Como é que uma mãe baseia o cagaço de 'castrar' a filha do celular ao dizer que dessa forma castraria TODA a vida social da filha? Que tipo de lógica hemiplégica (aleijada) é essa, que desconsidera radicalmente a Possibilidade que o Inconsciente oferece, de overcome as sobredeterminações simbólicas ao fazer referência ao real dessa possibilidade de Outra-coisa? O problema é que também a neurose não quer tolerar o equívoco, o vazio que preenchemos com nossas bobajadas quotidianas, imundanas. 
Não vou aqui discutir se é excessivo ou não mandar uma mensagem vazia a cada 8 minutos. Todos nos excedemos, de um modo ou de outro; há modos que não arrebentam com o corpo, e há modos que sim. À medida que conseguirmos adequar nosso fóssil (é assim que muitos biólogos se referem) corporal aos nossos modos de gozo, via techné, talvez não tenhamos a mesma opinião sobre o que é excessivo. Então não direi que a sociedade americana é psicótica ou neurótica, porém nota-se neste e em vários outros de seus sintomas que há uma dificuldade de dialetização em suas formações. Por isso, mais do que a filha enviar esse tanto de mensagens, quem me espantou foi a mãe, por ter reduzido a interação social, simbólica da garota ao  literal do aparelho de telefone.
Quanta diferença para com os pais de meio século atrás!: rigorosos, severos; hoje, frouxos e permissivos. Nem melhor, nem pior: no entanto, não será dos pais (parece que não há pai em sua casa) que a menina herdará sua capacidade de simbolizar perdas para obter outros ganhos, quer dizer, dialetizar. Ela terá que buscar isso - se algum dia precisar - em outro lugar; coisa que é bem possível. 
Freud colocava o Pai como a referência dessa função de simbolização, ou seja, de perda e troca de objetos. Porém, Lacan diz que há várias formas de se acionar a função do Pai, e não necessariamente via genitor, visto que a configuração familiar se mostra irreconhecível para os mais velhos. E talvez hojendia seja um momento em que ainda não se sabe muito bem como fazer função paterna sem Pai; porque, neste caso aqui citado, a mãe não a faz. Mas muitas mães por aí ocupam essa função, que talvez algum dia deixe de se chamar paterna (já que o pai é dispensável, importando somente a função - não importa quem a faça). A questão que fica é: como fazer cada vez mais referência a essa função, que permite maiores possibilidades simbólicas aos seres falantes? Segundo MD Magno, o Pai é uma invenção do período neolítico, quando o homem parou de ser vagabundo (nômade), fixando lar; com sua falência, devemos (eticamente) arranjar meios de não perder a função que outrora fora exercida majoritariamente pelo Pai, porque senão vamos arrebentar a boca do balão que nos sustenta no físico, tal como Annie; não dará tempo de inventarmos um corpo que nos suporte...

sexta-feira, 19 de março de 2010

He, She... It? May Well Be...

O Governo do estado de New South Wales, na Austrália, emitiu uma certidão de "Gênero não-específico" a Norrie May-Welby (foto), 48. Esta é a primeira pessoa no mundo a ser reconhecida como tendo um sexo que não seja masculino ou feminino. Norrie nasceu com pênis na Escócia e aos 23 anos passou por uma cirurgia para "reassignment" sexual, além de tomar hormônios; na Austrália foi registrada como mulher. Insatisfeito com a cirurgia, dois anos depois Norrie parou de tomar os hormônios e assumiu a identidade "andrógina", chegando mesmo a dizer "neutra". Em suas próprias palavras: "Esses conceitos, homem e mulher, simplesmente não se adequam a mim, não são minha realidade, e se aplicados a mim, são ficção[...]
"Se eu precisar de mostrar documentos de identidade, certamente não quero que sejam falsos, pois isso só causará problemas quando os oficiais perceberem que eu não correspondo aos meus documentos. Se meu passaporte, por exemplo, afirma que eu sou uma mulher, posso ser detida durante uma viagem se a jurisdição local me classificar com base no gênero atribuído no nascimento ou se meu atributos masculinos, notáveis (por exemplo, meu pomo-de-Adão ou meu peitoral amplo), forem percebidos. Se o passaporte afirmar homem, novamente há uma dissonância para com minha forma física, com a castração tendo efeitos feminizantes, e eu geralmente ando e falo de uma maneira feminina. Afirmar que meu sexo é homem ou mulher falsifica a afirmação, o que é inaceitável para uma documentação de identidade legal, e me coloca em risco de detenção e violação."
Norrie conseguiu um atestado médico que também afirma a neutralidade de seu sexo, tanto genitalmente, como hormonalmente. E fez palestras que intentavam atacar o que chama de "gênero polarizado": apenas haver homens ou mulheres, sem possibilidade de uma terceira categoria.

O que é o homem? O que é uma mulher? Será que, como afirma Norrie, existe um terceiro sexo, para além das oposições male/female?

Cito MD Magno: "Lacan, em emulação com Aristóteles, procura construir uma lógica da psicanálise com fundamento na castração. Como sabem, Aristóteles diz que, 'se existe caneta', quando pudermos dizer 'toda e qualquer caneta' e funda-se um universal, que é 'existe caneta'. Lacan, por sua vez, diz que a lógica da psicanálise não pode ser esta, pois não é a generalização da existência que para ela põe o universal. Para ele, a lógica da psicanálise é a lógica da castração tal como Freud a colocou. Voltando à historinha do menino-tem-pipi/menina-não-tem-pipi, esta lógica da castração se imporia em função de os homens - e é assim mesmo que Lacan o diz - serem aqueles que têm medo da castração. Como têm o famigerado pintinho e morrem de medo que lhe arranquem, eles acham que 'existe pelo menos um que diz não à função fálica', ou seja, ao seu tesão, e consequentemente à sua masturbação. Como têm o pipi e o papai diz 'se você continuar com a mão aí, eu o corto fora', existe pelo menos um que diz 'não' para que todos possam usar o tesão à vontade, mas dentro desta lei de proibição. Eles passam a vida inteira com medo disto e só se cria o universal todo (A) x é função fálica (Ax . Φx) porque existe pelo menos um x que diz não a esta função (Ex .  ~Φx). E para as mulheres, não existe ninguém que diga não (~Ex ~Φx), com a consequência de que o universal não existe, é negado, não todo é função fálica (~Ax . Φx). Assim, A Mulher não existe, só existem mulheres, no plural. Não podemos dizer A Mulher porque as mulheres não fazem um universal."
Nota-se que para Freud, Lacan e Magno que a sexualidade não está adscrita à genitalidade imaginária dos corpos, porém a uma pura lógica da relação do sujeito com a castração. 
Lacan definiu as posições sexuais dos falantes a partir da lógica aristotélica aliada à lógica do significante, o que ele chamou de fórmulas quânticas da sexuação. Os conceitos de homem e mulher foram determinados na relação que o sujeito tem com o significante fálico, que por sua vez é o significante que porta os efeitos de significação (Die Bedeutung des Phallus - Escritos) e que não significa coisa alguma (Seminário 20). 
Pois bem, o que Lacan coloca é que só há dois modos de posicionamento sexual. O que ele chama de homem é a posição do sujeito referenciada ao gozo fálico, ao gozo do significante, do limite. Se há algum limite, então podemos dizer que há um todo, um conjunto fechado demarcando esse limite; tudo o que estiver dentro dos limites é o todo. O significante faz um limite ao gozo-do-Outro instaurando aí a falicidade do gozo masculino. Quer dizer, homem e mulher são nada mais do que as relações do falante com seu gozo. Então o gozo do homem se faz ao colocar-se um limite à função fálica, ou seja, fazer função de Nome-do-Pai, fazer sentido (já que a metáfora paterna é o que dá sentido). "O todo repousa, aqui, na exceção colocada" (Sem 20). O homem se define enquanto colocando limite no significante. "Uma propriedade Φ só pode fundar um todo ligado [...] pela referência a um limite construtível, isto é, uma existência que faça exceção a Φ" (MD Magno - Grande Ser Tão Veredas). Por consequência, temos "Ax . Φx" - toda variável se inscreve dentro de um limite com referência ao falo, este estando excluído como o limite do universal de todas as variáveis: e essa é a função fálica. Ao excluir o falo, homem nega que não haja significado do falo, já que o falo é "entre todos os significantes, esse significante do qual não há significado, e que quanto a sentido, simboliza seu fracasso" (Sem. 20); ao negar o não senso, dá-lhe sentido, limitando assim o uso do significante, função do Nome-do-Pai. O Homem funda a ordem do que é universal, do que faz todo, fechado e com um resto lá fora.
Já a mulher não se aferra ao limite (que ela sabe ser um mito, já que nem tudo é significante): a mulher visa um gozo suplementar ao fálico, um gozo difuso por não ser referenciado ao limite. É aquela famosa dúvida de Freud "Was will das Weib?", 'o que quer uma mulher?' O homem precisa do significante para sê-lo; uma mulher vai além do significante sem-sentido (o falo) e visa o significante que não há no Outro (S de A barrado) na tentativa de inscrever-se fora da função fálica, o que é impossível, pois a única via de inscrição é a do significante. "~Ex . ~Φx". Não existe a negação do significante fálico (freudianamente, é o fato de não ameaçarem cortar o pipi da menina fora, porque ela não tem pipi), o que implica que não existe o limite com o qual se constrói o todo. O todo só pode ser construído pelo limite: essa é a lógica da castração. Em outras palavras, não há o todo; em outras palavras ainda, há o não-todo. A consequência é que "~Ax . Φx"; não é todo x que se inscreve na função fálica de x. Se não existe algum que nega o falo (~Ex . ~Φx), temos uma negação do todo (~Ax . Φx), ou seja, a mulher não nega que o falo não significa  nada, o que explica a loucura delas: seu gozo não é todo fálico. A referência delas é apenas o impossível, é apenas a negação da função fálica, requerendo apenas o significante que falta ao Outro (que, precisamente por ser não-todo, não existe). Aí também fica impossível definir o que a mulher é, em termos de significante. Uma mulher aponta para o que extrapola o campo do significante: que o Outro não se fecha, a não ser imaginariamente, sintomaticamente, masculinamente. Por isso as mulheres se alinham com o Real e com o insuportável.
No caso de Norrie, o paradigma vigente em psicanálise lacaniana é que ele é provavelmente psicótico, por não conseguir simplesmente simbolizar sua opção sexual e manter o corpo que Deus lhe deu intacto, sem levar a sua opção simbólica ao literal desse corpo. Mas será que podemos conceber a possibilidade de isso não ser necessariamente uma psicose? Será que no dia em que as tecnologias permitirem alterar o corpo de formas muito mais avançadas e seguras, não vamos "nós", neuróticos, também procurar outros corpos mais adequados àquilo que pensamos ser? Freud já dizia que somos 'deuses de próteses', o que se reflete na velha anedota de que 'a tecnologia veio pra solucionar problemas que não tínhamos até o seu advento'. Será que nesse dia não escolheremos uma cor de pele azul ou mudar a cor dos olhos para ir a uma festa, ou mesmo pra ficar assim durante o dia, ou o mês, ou o ano, ou a vida toda? Vinícius de Morais dizia ser o branco mais preto do Brasil. Vai que nesse dia conjecturado aqui um outro branco queira virar preto por ter nascido no gueto... 
Outra coisa que me parece interessante no caso de Norrie é que ela convoca o Outro a outorgar-lhe sua sexualidade. Ela registra isso perante o Outro, fazendo laço com ele (uma vez que lhe foi concedida sua opção sexual), coisa que não me parece muito psicótica, e nem querelante.
No final de sua vida, de seu ensino, especificamente no seminário 26, Lacan se pergunta se não há um terceiro sexo. Seis anos antes, ele afirmava categoricamente existirem apenas dois. Depois, vacila, equivoca. Mas nada chegou a ser formulado por ele. No entanto, é algo a se pensar. Lembremos Lacan no seminário 20: 'homem' e 'mulher' são apenas significantes. Mas qual é o sexo do sujeito, aquele que habita entre os significantes?
Quem definiu um sexo para além das oposições H/M foi MD Magno. Para ele, o terceiro sexo é angélico... A diferença sexual para Lacan tem como precondição a existência ou não de limite. Se existe limite, quer dizer, exceção (um excesso paralém do limite) há todo, há homem; se não (senão), há mulher, ou seja, a inclusão do excesso no campo, que apaga as margens do limite. Mas aí entra uma outra lógica: aquilo que o homem nega pra fundar o todo (Ex . ~Φx), e que a mulher diz não existir enquanto negação (~Ex . ~Φx) é, antes de ser negado (homem) e antes de negar essa negação (o que a mulher nega é a referência fálica), é afirmado pura e simplesmente (Ex . Φx). O falo se afirma para ambos, e cada um faz algo com ele: o homem colocando-o de fora, mas em estrita referência a ele, e a mulher indo além dele rumo ao Gozo-do-Outro, rumo àquele significante que não há (S de A barrado), assim denegando a função fálica, que para ela também comparece: por exemplo, quando ela diz que seu pipi vai crescer, ou ela vai comprar, ou ganhar da mãe, etc. Mas nenhum deles pode anular por inteiro a existência do falo; obviamente que o homem não pode, já que o falo, mesmo negado, é sua referência de todo; e a mulher também não consegue negá-lo totalmente, visto que o Gozo-do-Outro é impossível, por não haver S de A barrado, o que a faz recair no gozo fálico, mas não-toda. Por isso Lacan vai dizer que a mulher é não toda, nem no gozo fálico, nem no Gozo-do-Outro. Ou seja, diante da afirmação absoluta do falo (Ex . Φx), para ambos os sexos, a função fálica pode ser negada, mas não-toda (~Ax . ~Φx). Quer dizer, temos aí uma outra fórmula, que mantém relação com o falo, porém nem como homem (sustentando-o de fora:  Ex . ~Φx), nem como mulher (rechaçando-o [quase foracluindo: daí a afinidade entre a mulher e a loucura] em prol do gozo-do-Outro: ~Ex . ~Φx). Aqui então desenha-se um terceiro sexo, um terceiro modo de relação, entre a oposição homem/mulher (como um sujeito que habita entre esses mesmos significantes), porém sem ser inteiramente um, nem inteiramente a outra; é outra coisa em relação aos outros dois. O limite não é inteiramente construtível, mas também não é inteiramente negável, tal como não são discerníveis o dentro e o fora numa banda de Möebius, tal como não se pode negar a dar sentindo às coisas, porém podendo equivocá-las, na rememoração da neutralidade fálica (Ex . Φx). Esse sexo é o que MD Magno chama de anfi-sexo no que permite transitividade entre a posição masculina e a feminina, apenas importando o gozo que se pode extrair de cada um dos sexos: e esta é uma neutralidade do sexo, não como se ele não existsse, porém como sendo existente e indiferente ao modo de gozo, tal como a pulsão não tem sexo. Ou melhor, tem, só que neutralizado, aquém ainda de se tornar masculino ou feminino (enquanto significantes), que são suas derivações, seus modos.
Vemos assim como Norrie tenta se posicionar nesse mesmo lugar angélico, e como nas suas próprias palavras, sair da 'polarização de gênero' para referir-se à insuficiência dos conceitos de homem e mulher ao situar-se em um corpo que transita muito bem-dita-mente (pra ficar com a referência ética de Lacan) no entressexo - sexo do sujeito reduzido ao intervalo (neutro) entre os significantes que o representam como homem ou mulher (vel da alienação)... Sexo-equívoco - precisamente o que se espera da psicanálise: a equivocação do sexo. MD Magno: "Se é verdade que, enquanto falanjos, somos determinados pelo simbólico, então somos, nãotodos, do terceiro sexo: uma barra [entre significantes]... Porque o sexo do falante é Real. Além de masculino ou feminino, no simbólico. E ou Macho ou Fêmeo no Imaginário."
E uma coisa que impressiona nesse caso é que Norrie equivoca seu próprio nome para mostrar como equivoca seu sexo: seu sobrenome May-Welby é homofônico a "may well be", "pode ser" em português: pode ser homem, pode ser mulher; como ela diz, "depende do dia", mas o que ela é no real não cabe em nenhum deles...
Lacan disse que não há relação sexual, o que é vero; que tudo o que se enuncia de discurso é semblante; e que é preciso dispensar o pai, porém com a condição de se fazer uso dele como semblante. Está na cara que Norrie usa seus sexos como semblantes (como e quando lhe convir) de seu Sexo de origem: neutro, pois ninguém nasce homem ou mulher, nasce querendo gozar de ambos os jeitos. Uma psicanálise deseja (como desejo do analista) ir para além do Outro, mas fazendo um uso-equívoco dele, um uso meramente de semblante, disponível às (in)diferenças. É isso que Norrie faz.
A língua inglesa tem uma outra possibilidade interessante para escrever (do real) esse equívoco na forma de pronome: "S/He". Esse sintagma, usado por alguns noticiários internacionais, contém ambas as palavras, She e He, porém com uma barra exatamente onde os modos específicos de seus gozos se dividem: a barra da não-relação sexual (entre 'S' de She e o 'H' de He). Acrescentando mais um pouquinho de delírio, vemos também que uma mulher tem uma letra a mais que o homem: o S do suplementar de 'seu' Gozo-do-Outro, além do 'H' de He, do 'H' de Homem. Vemos também que o que há de comum tanto a homens quanto a mulheres, ou seja, o que lhes é indiferente, é o "e", de equívoco, que só pode ser essa neutralização entre She e He; aquilo que, por pertencer a ambos, é diferente de cada um deles. O específico do Homem (He) é ser aquele que não tem 'S' de She, põe o 'S' de fora de seu limite; o específico da mulher é querer ser o S(uplementar) sem He, sem referência fálica, o que não dá, não forma She; e a especificidade de "e" é não ser específico de nenhum deles justamente por pertencer a ambos, quer dizer, o "e" não é o que especifica o sexo, mas ao contrário, ele É o Sexo, enquanto não-específico, como consta na nova carteira de Norrie, e que pode pertencer a ambos os sexos, porém com a barra que separa as demais letras a alternar, a transar, a transitar entre os sexos (uma vez que não há relação sexual). O "e" é o fato de que existe falo, para ambos os sexos, pois ele não pode ser negado por inteiro (ele pode ser negado na medida da especificidade de cada sexo - o S ou o H: um pode negar o específico do outro, mas nenhum deles pode negar "e"), nem pelo He e nem pela She.
Nietzsche clamava o "para além do bem e do mal" como essa mesma tentativa de sair do jogo de oposições simbólicas e aproximar-se do real, como nos ensina também MD Magno, seguindo indicações do último Lacan. Norrie assim dá um passo (um passe) que mostra ao Outro da lei o equívoco de seu saber suposto apenas na oposição de gênero, dessa forma abrindo caminho para a legalização do equívoco sexual.
Onde passa boi, passa boiada...

PS:
Reportagem de um site australiano que noticiou sobre a certidão de Norrie (em inglês): http://www.thescavenger.net/glbsgdq/sex-not-specified-australia-leads-the-way-in-legal-document-756345.html

PS-2:
Diante de um assunto tão difícil (a formulação lógica da sexualidade em Lacan e MD Magno), agradeço àqueles que apontarem equívocos em algum ponto da minha argumentação. Espero ter aberto a discussão e causado interesse maior na obra de MD Magno.

PS-3:
Qual é o sexo do psicótico? Será ex-sexo mesmo?

segunda-feira, 8 de março de 2010

Para bom entendedor...

No final de seu ensino, Lacan poliu a conceituação ética da psicanálise através de sua enodação ao que era (im)possível de saber do inconsciente. Ele dizia que a verdade não se pode dizer toda, pois que a lei do equívoco significante e seu real neutro impedem que haja um todo do conjunto significante (S de A/). Por isso, a verdade só pode ser meio-dita, o que implica só haver meias-verdades: tudo o que se diz se contamina de engano (L'une-Bévue).
E é a partir das meias-verdades que Lacan estatui sua ética psicanalítica: se não se pode dizer o real por inteiro, é necessário Bem-dizê-lo. E isso é estar em constante referência ao saber inconsciente, na medida de seu possível, e não em seu rechaço, o que Lacan considera uma covardia moral. Ou seja, uma vez que saber tudo é impossível, que se faça desse impossível de dizer um dizer possível sobre o não sentido do saber. E saber-fazer esse bendizer (ou bendizer esse saber-fazer) é sempre se referir ao "saber de não-sentido" promovido por Lacan, quer dizer, ao equívoco do inconsciente, à divisão do sujeito. Divisão essa que sabemos ser entre um significante que o representa junto a outro significante, o sujeito habitando esse intervalo; ou melhor, o sujeito é o intervalo mesmo, o que está no-meio de um e outro nome de seu gozo: e por isso é melhor dar um bom nome a esse gozo para que o sintoma recrudesça e passe a outros modos (simbólicos) de seu real. Lacan chega mesmo a dizer que "só há ética do bem dizer", o que me leva a supor que paralém (ou paraquém) dessa ética há apenas moral (civilizada ou não).
MD Magno, em sua Est'Ética da Psicanálise (Seminário 89), diz que a ética da psicanálise é a do bom entendedor: meia palavra basta, no que o significante se equivoca  (meia-palavra) e evoca outro significante. Mas quero aqui subverter o sintagma, visto que é a boa palavra (quase diria palavra plena, segundo o primeiro Lacan) que divide o sujeito e o confronta com sua falta (de consistência) constituinte; uma ética que se diga psicanalítica deve seguir esse expediente: para meio entendedor ($), boa palavra basta (para bendizer a maldi(c)ção sintomática).

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ah, bruta flor do quereres...

Caetano Veloso pode ser o que as pessoas quiserem, visto que há opiniões completamente simétricas sobre ele: um chato, um pedante, um musiquinho, um intelectual, um grande músico, e etc. No entanto, sendo ele tudo isso, ou independente disso, Caetano pode nos transmitir psicanálise, no entanto, sem ensiná-la. 
É que a canção "O Quereres" (que na minha opinião é uma das mais criativas e lúcidas já produzidas) descreve com muita clareza a lógica do inconsciente, no que a lei do significante se articula à pulsão. Toda a canção lida com jogos de palavras em oposição. Mas ele determina a oposição entre uma palavra e outra simplesmente pelo sentido que dá a elas. Acompanhemos:

"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres 'não'

Onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
Onde queres o chão minh'alma salta
E ganha liberdade na amplidão"

Caetano joga o tempo inteiro opondo uma palavra a outra. Mas há palavras que ele usa que não têm significação oposta no seu uso comum. Um revólver não é um oposto de coqueiro: essas palavras não têm antônimos! Como é que a arte faz então? Ela diz que 'revólver' é a mesma coisa que 'guerra' e coqueiro é o mesmo que 'paz'; aí, sim, há uma relação de oposição. É o famoso 'sentido figurado', o sentido metafórico das palavras... Com isso, Caetano mostra que é possível opor qualquer palavra a qualquer palavra, com a condição de se manejar com precisão lógica os sentidos com que se as dotam, com os sentidos que se adotam...
Só que o que a psicanálise descobriu é que nenhuma palavra em si tem sentido, a não ser em uma relação com outra. É o que Lacan chamava de relação simbólica, relação de identidade de algo por sua alteridade, pela sua Outridade. O trabalho do sonho, por exemplo, ou o trabalho do sintoma, eram a formação de sentido a partir de dois significantes que tinham que se significar mutuamente, mas esses significantes podem significar uma miríade de sentidos, o que leva a supor que o sentido que se os dá depende apenas de seu uso na relação simbólica, não tendo antes desse uso sentido algum. 
Sabemos pela psicanálise, também, que o imaginário insiste em dar unidade às coisas, em supor que haja 'propósito', 'destino', ou qualquer sentido. E os sentidos se fixam nos corpos, formando sintomas deles, quer dizer, formações estacionárias que só querem se manter, se repetir (como automaton sintomático). Mas o Real vem para abolir o sentido em prol de Outro. E o Real é a própria demonstração de que há outro sentido para qualquer relação de significação. E Lacan é textual: "Eu garanto que, numa frase, se possa fazer com que qualquer palavra venha dizer qualquer sentido". É uma frase de impacto! É apenas pela via da neutralização do sentido que a palavra perde consistência. E é precisamente o que Caetano faz. Esvazia o sentido de 'revólver' e injeta-lhe 'guerra'; da mesma forma, de 'coqueiro' passa-se a 'paz'. Então, isso tudo implica que só há sentido figurado, porque se qualquer palavra pode ser qualquer outra (por ser vazia), sempre é necessário dar sentido (ou seja, fazer metáfora) aos significantes para dizer algo. O que ma leva a supor que o sentido literal é não-sentido. Literal é x=x. Como disse Gertrude Stein: "Uma rosa é uma rosa é uma rosa". Ora, o princípio da identidade é derrogado na lógica do significante, uma vez que só a alteridade pode fazer sentido, fazer metáfora, significar outra coisa além (ou aquém) de si mesma. 
Toda relação simbólica é relação de oposição. S1 e S2 não têm conteúdo. O que interessa é que há um vazio e outro vazio, há uma diferença pura, relação que poderíamos chamar de x e -x. Poderíamos chamar também de esquerda ou direita. Ou de revólver e coqueiro. Posso dar o nome que eu quiser a essa oposição, a essa diferença entre uma coisa e outra, o que conta é que essas duas coisas não são a mesma. E são opostas porque, se não for 'uma coisa', obviamente será a 'não-uma-coisa', o seu negativo, oposto, a "outra coisa". Ou seja, como nos mostra Caetano, 'revólver' é oposto de 'coqueiro'. E Caetano mostra que, na estrutura, paralém dos conteúdos que damos às palavras, o que resta é a relação de oposição, visto que em todas as linhas ele dá os sentidos das palavras para que elas tenham um 'sentido figurado' de oposição. Da mesma forma, dinheiro (que compra as coisas) e a paixão (que não pode ser comprada); desejo (incansável até ser realizado) e o descanso; o desejo (afirmação do desejado) e o não (negação do desejado); e etc.

"Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o louco, eu sou irmão,
E onde queres caubói, eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer"

A estrutura básica do texto é que, diante do desejo do Outro (Lacan), só se consegue ser o oposto desse desejo: 'Onde queres uma coisa, sou seu oposto'. O desejo do Outro nunca é atingido; porque se 'o desejo do homem é o desejo do Outro' como disse Lacan, e o desejo desse homem está submetido à lei do significante, isto é, à lei da interpretação, do equívoco, só se deseja o que se interpreta que o Outro deseja. Interpretar o que o Outro deseja só pode ser falho porque o que se supõe (e só pode-se supor pela linguagem) de Seu desejo pode ser equivocado. Ou seja, nunca interpretamos corretamente o desejo do Outro e assim não podemos evitar ser exatamente o contrário desse desejo. Quando supomos algum significante como significante do desejo do Outro esquecemos (recalcamos) que esse significante é passível de auto-diferença, que cai em sua oposição. E é exatamente lá que residem as singularidades de cada sujeito: não se fazer o objeto literal do desejo do Outro, mas sim opor-se a ele, porém numa relação (simbólica) com ele. 
Volto a ressaltar que a poesia do texto de Caetano está em que ele cria relação de oposição com palavras que não têm antônimos ao equivocar os sentidos dessas palavras. Leblon não é o oposto de Pernambuco, porém Caetano mostra que é, sim, já que Leblon é chique, sofisticado e Pernambuco é rústico e tosco; a cultura chinesa é tão diferente da de um caubói americano que elas se opões simplesmente por não terem nada a ver uma com a outra.

"Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher


Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói


Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor


Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és"


A estrutura da pulsão é catóptrica (katoptron, grego: 'espelho'), ela requer apenas o seu oposto, que é não existir mais, não viver mais, não ser mais pulsão. Mas isso ela não consegue, a não ser na 'morte' (apesar de que isso não existe - mas é assunto pra depois), por isso Freud a chamou de Pulsão de morte - aliás, a única que há. Como o significante também se catoptriza, nenhum significante que se coloca como lugar do objeto da pulsão é absoluto, sempre recaindo no seu oposto, como está nas duas últimas frases: o Outro não me quer como sou e nem se quer como é. Quer dizer, nem o que sou, nem o que és são o objeto do desejo (do homem e do Outro): tudo o que é não é objeto. Nada é objeto.

"Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio


Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus


O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim


Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim"


Com essa letra de música, Caetano nos transmite a lógica do significante sem precisar de explicar uma palavra de psicanálise (isso eu que tive que fazer). "O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual " é simplesmente a condição do sujeito, representado de significante a significante, diante do Outro, que só deseja o que não é, só deseja Outro significante, porque nenhum significante é completo, em si mesmo (S de A barrado).

Pra finalizar, o título. "O quereres" mostra que os vários 'desejos' que temos, resumem-se, na verdade, ao desejo sempre frustrado que a pulsão tem de desaparecer; e como ela não consegue, surgem vários significantes que tentam ocupar esse lugar de ser O objeto. O artigo definido "O" refere-se a esse único desejo que há: de morte. E o "quereres" diz dos gozos possíveis pela via do significante.
Mas já que não dá pra sumir ("mé funai", diria Édipo), gozemos com o que quer que haja por aí mesmo...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ninguém aprende a falar

Você aprendeu a falar? Será que você consegue dizer tudo o que você quiser? Tudo o que pensa? Penso que não.
Freud descobriu que as pessoas não sabem o que dizem, porque elas não sabiam porque sofriam. Tentavam dizê-lo, mas fracassavam; ou diziam outras coisas ou diziam "não sei". Mas Freud não o aceitava: tinha que haver uma causa para o sofrimento. Como só-depois de algum tempo elas conseguiam saber as causas de seus sintomas, Freud chamou esse (não-)saber de Unbewusst - inconsciente. Mas descobriu que L'une-Bévue tinha um buraco, um-bigo, impossível de abordagem (topologicamente falando), impossível de s'escrever, vazio que se faz objeto de nosso desejo. Lacan chamou isso de objeto a, o objeto do qual não se tem ideia (A Terceira), indizível, porém causa de desejo. Tudo o que se diz é para tentar dizê-lo e Lacan funda sobre isso toda uma ética da psicanálise, na qual parte-se do princípio que o inconsciente não pode dizer-se todo. Se o inconsciente pudesse dizer-se por completo, haveria o objeto a, e seríamos alguma coisa... mas o objeto-não-.
O objeto a é o objeto da pulsão, é o objeto do desejo (LACAN, Seminário 11, p. 229). Se pudéssemos dizer tudo, a pulsão teria (também no sentido de possuir o) objeto. Todos os objetos parciais que a pulsão rela (Lacan diria contorna) são relativos, e não absolutos; quando se o rela, ele passa pra Outro. Nenhum deles são objetos do desejo da pulsão, mas sim de seu gozo. Só Um objeto do desejo: "que não haja". Enunciação fantasmática que só quer o impossível, mesmo que o impossível não haja. Tudo o que todo mundo deseja é que não haja (desejo). Isso é a Pulsão de morte, que Freud achava ser uma tentativa de retorno ao inanimado, mas não é nem um retorno e nem ao inanimado. Era pra ser uma ida sem volta, porém sempre se frustra; o que retorna é a existência, o Haver (conceituado por MD Magno), o próprio movimento pulsional. A Pulsão não deseja existência, apenas goza dela (porque não há Não-Haver pra ela ir, não há outra coisa do que gozar; só se goza de 'dentro' do Haver).
Em sendo impossível dizer tudo (ou seja, dizer o Haver e o Não-Haver [que já é impossível de saída]), Lacan afirma que é necessário então Bem-Dizer o Haver. Mas isso não significa conseguir dizer todo o Haver. Bem-Dizer o Haver é produzir o que o francês chamou de "saber de não sentido" (o qual ele ainda afirma ser o único que há - "Televisão"), o equívoco que constitui a lei do significante, e o saber que emerge por intermédio desse equívoco. Quer dizer, o Haver não é todo dizível: "o Bem-Dizer não diz onde está o Bem" (Ibid.). Nada é tudo na lógica do significante. É sempre possível dizer algo que não se sabia, e se a análise serve pra algo, é para isso. Nosso acesso ao real é dublado pelo simbólico, que o fragmenta em significantes, cuja lógica não faz o Um real.
Por isso é sempre possível criar coisas que até então não foram ditas, seja individualmente, seja culturalmente. Por isso nenhuma língua está acabada: ela vai se dizendo, criando gírias, ditos populares, etc.
As pessoas fingem (sem-blante) que sabem falar, especialmente com os outros. Mas bota ela deitada pra falar de "si": gagueja e engasga. E ela não sabe o que diz. Por isso, ninguém aprende a falar: sempre erramos nas escolhas das palavras.